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Dor

Dor não é sinónimo de lesão

Pessoa a tocar no pescoço com representação do cérebro e sistema nervoso.

Sentir dor não significa necessariamente que exista uma lesão estrutural nos tecidos. A dor é uma experiência complexa, influenciada pela forma como o sistema nervoso processa diferentes informações e pelo contexto de cada pessoa.

Compreender esta diferença pode ajudar a interpretar melhor os sintomas e a perceber porque é que a intensidade da dor nem sempre corresponde à dimensão de uma lesão.

O que é a dor?

A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada — ou semelhante à associada — a dano real ou potencial dos tecidos. Esta é a definição atual da International Association for the Study of Pain (IASP), que sublinha algo importante: a dor é uma experiência pessoal, influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais.

Uma distinção importante é que dor não é o mesmo que nociceção.

  • Nociceção é o processo pelo qual o sistema nervoso deteta e codifica estímulos potencialmente nocivos.
  • Dor é a experiência consciente associada a esses sinais e ao contexto em que são interpretados.
  • Por isso, a presença de um estímulo potencialmente nocivo nos tecidos não determina, por si só, a intensidade da dor sentida.

É possível ter dor sem existir uma lesão?

Sim.

Esta é uma das ideias centrais do artigo. Não é necessário existir uma lesão estrutural identificável para uma pessoa sentir dor.

A dor é real mesmo quando não existe uma alteração estrutural visível num exame.

Isto não significa que a dor seja imaginária ou “psicológica”. Significa que o sistema nervoso participa ativamente na experiência dolorosa e que pode existir dor sem uma correspondência simples entre os sintomas e uma alteração estrutural identificável.

Não é correto dizer que a dor “está toda na cabeça”, que “é psicológica” ou que “não existe nenhuma causa”.

Dor e alterações estruturais nem sempre correspondem

Um exemplo claro é o da coluna vertebral. Alterações como degeneração dos discos, abaulamentos discais e protrusões são encontradas com frequência em pessoas que não apresentam dor, especialmente à medida que a idade aumenta.

Uma alteração encontrada numa ressonância magnética não deve ser automaticamente considerada a causa da dor. A interpretação deve considerar:

  • história clínica;
  • sintomas;
  • exame físico;
  • função;
  • contexto individual;
  • e, quando indicado, exames complementares.

As alterações estruturais podem ser clinicamente relevantes em determinados contextos, mas não explicam automaticamente todos os sintomas.

Suporte científico: Brinjikji et al. (2015), estudo de revisão sistemática sobre alterações degenerativas da coluna em populações assintomáticas.

Existem diferentes tipos de dor

Dor nociceptiva

Ocorre quando existe ativação dos nociceptores devido a dano real ou potencial dos tecidos não neurais. Exemplos gerais incluem lesão muscular, entorse, traumatismo ou processos inflamatórios. Estes exemplos não constituem diagnósticos.

Dor neuropática

É uma dor causada por uma lesão ou doença do sistema somatossensorial. Pode ser descrita como queimadura, choque elétrico, formigueiro, sensação de picada ou alterações de sensibilidade. Estes sintomas, isoladamente, não permitem estabelecer um diagnóstico e a avaliação adequada é importante.

Dor nociplástica

É uma categoria utilizada quando existe uma alteração da nociceção sem evidência clara de dano tecidular real ou potencial que explique a ativação dos nociceptores e sem evidência de lesão ou doença do sistema somatossensorial que explique a dor.

Em linguagem simples, pode existir uma alteração na forma como o sistema nervoso processa e modula os sinais relacionados com a dor. Não se trata de dor inventada, dor psicológica, dor sem causa ou algo que “está apenas na cabeça”. Diferentes mecanismos podem coexistir na mesma pessoa.

A intensidade da dor corresponde à gravidade da lesão?

Não necessariamente.

Exemplos simples:

  • Uma lesão relativamente pequena pode ser bastante dolorosa.
  • Uma alteração estrutural significativa pode existir com poucos sintomas ou até sem dor.
  • A mesma alteração pode provocar experiências diferentes em pessoas diferentes.

A intensidade da dor depende de vários fatores e não deve ser utilizada isoladamente para determinar a dimensão de uma lesão. A relação não é linear: “quanto maior a dor, maior a lesão” não é uma regra válida.

Porque é que duas pessoas podem sentir dores diferentes?

A experiência de dor pode ser influenciada por múltiplos fatores, num modelo frequentemente designado por biopsicossocial:

  • características biológicas;
  • estado do sistema nervoso;
  • experiências anteriores de dor;
  • sono;
  • stress;
  • estado emocional;
  • contexto;
  • expectativas;
  • nível de atividade;
  • fatores sociais.

Estes fatores não significam que a dor seja imaginária. O corpo e o sistema nervoso estão continuamente a interpretar informação dentro de um determinado contexto.

E quando existe uma lesão verdadeira?

O objetivo deste artigo não é dizer que as lesões não existem. Existem situações em que a dor está associada a dano ou ameaça de dano dos tecidos, como traumatismos, entorses, lesões musculares, fraturas, determinadas lesões articulares ou lesões nervosas.

Nestas situações, uma avaliação adequada pode ser importante para perceber a natureza e a gravidade da situação.

Nem toda a dor significa lesão, mas algumas dores estão associadas a lesões que precisam de avaliação adequada.

O que isto significa na prática?

Avaliar uma dor não deve consistir apenas em perguntar “Onde dói?”. É importante compreender:

  • quando começou;
  • como evoluiu;
  • o que agrava ou alivia;
  • como afeta o movimento e as atividades;
  • se existiu traumatismo;
  • se existem sintomas associados;
  • historial relevante;
  • e, quando necessário, resultados de exames complementares.

O objetivo é compreender o conjunto da situação e não procurar obrigatoriamente uma única alteração estrutural que explique todos os sintomas.

Quando é importante procurar avaliação médica?

Determinados sintomas justificam avaliação médica, particularmente quando existe:

  • traumatismo significativo;
  • suspeita de fratura ou luxação;
  • perda importante de força;
  • alterações neurológicas relevantes;
  • perda de sensibilidade extensa ou progressiva;
  • alterações importantes do controlo da bexiga ou intestino;
  • febre associada a dor sem explicação;
  • dor intensa e progressiva sem causa evidente;
  • dor associada a outros sinais de doença importante;
  • ou qualquer situação que cause preocupação significativa.

Este artigo não substitui um diagnóstico ou aconselhamento médico.

Onde pode enquadrar-se uma avaliação de osteopatia?

Uma avaliação de osteopatia pode enquadrar-se na abordagem de algumas queixas musculoesqueléticas, considerando a mobilidade, a função e as características individuais da pessoa. A abordagem é definida após avaliação e deve ter em conta o contexto clínico de cada caso. Quando existem sinais que justificam avaliação médica ou outro acompanhamento especializado, este deve ser procurado.

Não se afirma que a osteopatia cura a dor, elimina lesões, trata qualquer tipo de dor, substitui cuidados médicos, evita cirurgia, regenera discos, corrige definitivamente alterações estruturais ou garante resultados.

Conclusão

Dor não é sinónimo de lesão.

A dor é uma experiência complexa que resulta da interação entre o sistema nervoso, os tecidos e o contexto individual. Uma lesão pode provocar dor, mas a presença de dor não significa automaticamente que exista uma lesão estrutural identificável.

Por isso, compreender a dor exige olhar para além de uma imagem ou de um único sintoma. Quando a dor é persistente, intensa, limita as atividades ou surge associada a outros sintomas relevantes, uma avaliação adequada pode ajudar a perceber quais são os próximos passos.

Quer esclarecer uma situação?

Se pretende perceber melhor uma queixa musculoesquelética ou esclarecer quais poderão ser os próximos passos, pode enviar um pedido de contacto.

Fontes científicas

  1. International Association for the Study of Pain. (2020). The revised IASP definition of pain. International Association for the Study of Pain.
  2. Raja, S. N., Carr, D. B., Cohen, M., Finnerup, N. B., Flor, H., Gibson, S., Keefe, F. J., Mogil, J. S., Ringkamp, M., Sluka, K. A., Song, X.-J., Stevens, B., Sullivan, M. D., Tutelman, P. R., Ushida, T., & Vader, K. (2020). The revised International Association for the Study of Pain definition of pain: Concepts, challenges, and compromises. Pain, 161(9), 1976–1982. https://doi.org/10.1097/j.pain.0000000000001939
  3. Fitzcharles, M.-A., Cohen, S. P., Clauw, D. J., Littlejohn, G., Usui, C., & Häuser, W. (2021). Nociplastic pain: Towards an understanding of prevalent pain conditions. The Lancet, 397(10289), 2098–2110. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(21)00392-5
  4. Brinjikji, W., Luetmer, P. H., Comstock, B., Bresnahan, B. W., Chen, L. E., Deyo, R. A., Halabi, S., Turner, J. A., Avins, A. L., James, K., Wald, J. T., Kallmes, D. F., & Jarvik, J. G. (2015). Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. American Journal of Neuroradiology, 36(4), 811–816. https://doi.org/10.3174/ajnr.A4173

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