Voltar ao blog

Lesões

Lesões desportivas: primeiros passos e regresso à atividade

Pessoa a recuperar de uma lesão desportiva com progressão para o regresso à atividade.

As lesões desportivas podem acontecer tanto durante a competição como durante o treino. Entorses, distensões musculares, contusões e outras lesões musculoesqueléticas podem exigir diferentes estratégias de avaliação e recuperação.

Perante uma lesão, o mais importante é perceber a gravidade da situação, controlar a carga inicialmente e, quando apropriado, retomar progressivamente o movimento e a atividade. O processo deve ser adaptado ao tipo de lesão, à pessoa e às exigências do desporto praticado.

O que fazer nos primeiros momentos?

  1. Parar ou reduzir temporariamente a atividade que provocou ou agravou os sintomas.
  2. Avaliar a situação e perceber se existe necessidade de avaliação por um profissional de saúde.
  3. Evitar continuar a treinar através de sintomas que estejam claramente a agravar-se.
  4. Nas primeiras horas, adaptar a atividade e a carga às características da lesão.
  5. Retomar o movimento de forma progressiva quando for apropriado.

A estratégia inicial depende do tipo e da gravidade da lesão. Não existe uma única regra válida para todas as situações: gelo, repouso absoluto ou outras medidas podem fazer sentido em alguns casos, mas não devem ser apresentados como obrigatórios em todas as lesões.

Quando procurar avaliação?

Uma avaliação profissional é especialmente importante quando existe um ou mais destes sinais:

  • Dor intensa ou que está a aumentar;
  • Incapacidade de apoiar peso ou utilizar normalmente o membro;
  • Deformidade visível;
  • Perda importante de movimento ou função;
  • Inchaço significativo após traumatismo;
  • Suspeita de fratura ou luxação;
  • Sintomas neurológicos;
  • Perda de consciência ou sintomas após impacto na cabeça;
  • Sintomas que não estão a melhorar ou que limitam significativamente a atividade.

Em situações de emergência ou quando existe suspeita de uma lesão grave, deve ser procurada avaliação médica adequada.

Recuperação: voltar à atividade de forma progressiva

A recuperação de uma lesão não consiste apenas em esperar que a dor desapareça ou em ficar em repouso. Depois da fase inicial, é importante recuperar progressivamente a capacidade para as exigências da vida diária, trabalho, exercício ou desporto.

A recuperação não significa simplesmente deixar de sentir sintomas. Significa também recuperar progressivamente a capacidade necessária para voltar às atividades que fazem parte da vida da pessoa.

Depois de uma lesão ou período de menor atividade, existem duas estratégias pouco úteis: voltar imediatamente ao nível anterior de atividade, ou evitar demasiado tempo a atividade por receio de agravar a situação. Em muitas situações, a recuperação envolve uma progressão gradual das exigências colocadas sobre o corpo.

Recuperar não significa ter pressa. Também não significa ficar parado. Significa encontrar uma carga adequada à capacidade atual e progredir à medida que essa capacidade aumenta.

O que significa carga progressiva?

Carga não significa apenas levantar pesos. Pode incluir caminhar durante mais tempo, subir escadas, permanecer em pé ou sentado durante mais tempo, levantar objetos, correr, saltar, mudar de direção, treinar no ginásio, regressar progressivamente às exigências profissionais, ou regressar ao treino ou competição.

A carga pode ser aumentada através de diferentes variáveis:

  • intensidade;
  • volume;
  • frequência;
  • velocidade;
  • amplitude;
  • complexidade;
  • especificidade da atividade.

Não existe uma regra universal para aumentar estas variáveis. A progressão deve depender da capacidade atual, da situação e da resposta individual.

Porque é importante voltar a expor o corpo à carga?

O corpo adapta-se às exigências a que é exposto. Depois de períodos de menor atividade podem diminuir algumas capacidades, como força, resistência, tolerância ao esforço, coordenação, confiança no movimento e capacidade para realizar determinadas tarefas.

O repouso pode ter lugar em determinadas fases, mas o repouso prolongado, por si só, não reconstrói necessariamente a capacidade necessária para regressar à atividade anterior. A recuperação deve, quando apropriado, incluir uma reintrodução progressiva das exigências.

Mais carga não significa necessariamente melhor recuperação

Aumentar demasiado rapidamente a carga pode provocar uma resposta excessiva dos sintomas ou ultrapassar a capacidade atual de recuperação. Por outro lado, uma progressão demasiado conservadora pode não proporcionar estímulo suficiente para recuperar determinadas capacidades. O objetivo é encontrar uma carga adequada à capacidade atual e ajustá-la ao longo do processo.

A dor significa que é preciso parar?

Dor e carga não têm uma relação simples. Algum desconforto durante uma recuperação não significa necessariamente que tenha ocorrido uma nova lesão. Ao mesmo tempo, isso não significa que a dor não importe.

É importante observar:

  • sintomas durante a atividade;
  • resposta algumas horas depois;
  • resposta no dia seguinte;
  • capacidade funcional;
  • evolução ao longo do tempo.

Quando os sintomas aumentam de forma relevante ou persistente, pode ser necessário ajustar a carga, intensidade, volume, frequência ou complexidade da atividade.

A progressão deve aproximar-se da atividade que a pessoa quer recuperar

A recuperação deve, progressivamente, aproximar-se das exigências reais da pessoa. Aqui ficam alguns exemplos simples:

Para alguém que quer voltar a correr: caminhar → aumentar progressivamente a duração → introduzir corrida → aumentar duração → aumentar velocidade → introduzir exigências específicas da atividade.

Para alguém que quer voltar ao ginásio: movimentos simples → resistência adequada → aumento progressivo da carga/volume → exercícios mais exigentes → aproximação às cargas habituais.

Para um atleta: movimentos gerais → corrida → aceleração/desaceleração → mudanças de direção → movimentos específicos da modalidade → treino → competição.

O regresso ao desporto pode ser entendido como um processo progressivo e não como uma decisão binária entre “lesionado” e “recuperado”.

O exercício pode fazer parte da recuperação

O exercício pode ser uma componente importante da recuperação em várias condições musculoesqueléticas. A evidência científica indica que o exercício e a atividade física podem contribuir para melhorar dor e função em diferentes situações, incluindo dor lombar, embora os efeitos possam variar e não exista um exercício universalmente superior para todas as pessoas.

Estas são conclusões gerais da evidência e não uma prescrição individual. A escolha do exercício deve ter em conta a situação específica de cada pessoa.

E se os sintomas aumentarem durante a progressão?

A progressão nem sempre é linear. Pode acontecer: progressão → aumento dos sintomas → ajuste da carga → adaptação → nova progressão.

Uma alteração temporária dos sintomas não significa automaticamente que toda a recuperação tenha sido comprometida. O importante é avaliar magnitude, duração, resposta funcional e evolução.

O papel da avaliação durante a recuperação

Uma avaliação pode ajudar a perceber:

  • quais os movimentos atualmente tolerados;
  • quais as capacidades que precisam de ser desenvolvidas;
  • quais as exigências da atividade para a qual a pessoa pretende regressar;
  • como está a responder à carga;
  • quando pode ser adequado progredir;
  • quando pode ser necessário modificar temporariamente a atividade.

As exigências variam muito entre pessoas. Voltar a caminhar, trabalhar, correr, treinar ou competir são objetivos diferentes.

Onde pode entrar a osteopatia?

Técnicas manuais podem ser utilizadas como parte de uma abordagem mais ampla, quando consideradas adequadas, podendo complementar uma estratégia que inclua movimento e exposição progressiva à carga.

Não se afirma que a osteopatia acelera a recuperação, trata ou cura lesões, ou que a terapia manual é superior ao exercício. A mensagem é que uma abordagem manual pode complementar o processo, enquanto a recuperação da capacidade física exige progressivamente movimento e exposição às exigências da atividade.

Exemplos de lesões desportivas

Entorse do tornozelo

Depois de uma entorse, a progressão pode envolver recuperação da mobilidade, força, equilíbrio e capacidade de realizar movimentos específicos do desporto.

Distensão muscular

Uma distensão muscular pode exigir uma progressão gradual da carga, começando por exercícios adequados à fase de recuperação e avançando progressivamente para movimentos mais exigentes.

Dor muscular após treino

Nem toda a dor após exercício significa uma lesão. A intensidade, duração, contexto e evolução dos sintomas devem ser considerados.

Lesões do joelho

Queixas no joelho podem ter diferentes causas e exigem avaliação individual. A recuperação pode envolver trabalho de força, controlo do movimento e progressão das tarefas específicas do desporto.

Quando voltar ao desporto?

Regressar ao desporto não deve depender apenas de “já não tenho dor”. A decisão pode considerar vários fatores:

  • Sintomas;
  • Amplitude de movimento;
  • Força;
  • Capacidade funcional;
  • Confiança para realizar os movimentos;
  • Tolerância à carga;
  • Exigências específicas do desporto;
  • Resposta do corpo ao treino progressivo.

O retorno deve ser gradual e o atleta pode passar por diferentes etapas antes de voltar à competição completa. O momento adequado depende da lesão, da evolução individual e das exigências da atividade. Em algumas situações, é necessária avaliação e autorização médica antes do regresso.

E se houver uma pancada na cabeça?

Sintomas após impacto na cabeça devem ser valorizados. Podem incluir, entre outros:

  • Dor de cabeça;
  • Tonturas;
  • Náuseas;
  • Alterações de equilíbrio;
  • Dificuldade de concentração;
  • Sensibilidade à luz ou ao ruído;
  • Alterações de memória.

Uma suspeita de concussão exige avaliação adequada e o regresso ao desporto deve ser gradual e acompanhado por profissional de saúde qualificado.

Como reduzir o risco de novas lesões?

Nenhuma estratégia elimina completamente o risco de lesão, mas algumas práticas podem contribuir para reduzi-lo:

  • Preparação adequada para o desporto;
  • Progressão gradual da carga de treino;
  • Trabalho de força;
  • Recuperação adequada;
  • Sono;
  • Técnica e capacidade específicas do desporto;
  • Atenção a alterações persistentes de sintomas;
  • Adaptação da carga quando necessário.

Estas medidas fazem parte de uma estratégia de prevenção, mas não garantem que uma lesão não vá ocorrer.

Onde pode enquadrar-se uma avaliação de osteopatia?

Uma avaliação de osteopatia pode enquadrar-se na abordagem de algumas queixas musculoesqueléticas, tendo em conta a mobilidade, função e características individuais da pessoa. A abordagem deve ser definida após avaliação e não substitui a avaliação médica quando esta é necessária.

Conclusão

Uma lesão desportiva não deve ser avaliada apenas pelo nível de dor. A evolução dos sintomas, a função, a capacidade de suportar carga e as exigências do desporto são fatores importantes para orientar a recuperação.

Quando existe dúvida sobre a gravidade da lesão ou quando os sintomas persistem, uma avaliação profissional pode ajudar a definir os próximos passos de forma adequada.

Se pretende esclarecer uma situação musculoesquelética ou perceber quais os próximos passos para a sua situação, pode enviar um pedido de contacto.

Fontes científicas

  1. Ardern, C. L., Glasgow, P., Schneiders, A., et al. (2016). 2016 Consensus statement on return to sport from the First World Congress in Sports Physical Therapy, Bern. British Journal of Sports Medicine, 50(14), 853–864. https://doi.org/10.1136/bjsports-2016-096278
  2. Paton, B. M., Read, P., van Dyk, N., et al. (2023). London International Consensus and Delphi study on hamstring injuries part 3: Rehabilitation, running and return to sport. British Journal of Sports Medicine, 57(5), 278–291. https://doi.org/10.1136/bjsports-2021-105384
  3. Comachio, J., Beckenkamp, P. R., Ho, E. K. Y., et al. (2025). Benefits and harms of exercise therapy and physical activity for low back pain: An umbrella review. Journal of Sport and Health Science, 14, 101038. https://doi.org/10.1016/j.jshs.2025.101038
  4. World Health Organization. (2020). WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. World Health Organization.
  5. Smiley, T., Dallman, J., Long, R., et al. (2024). Lower extremity return to sport testing: A systematic review. The Knee, 50, 115–146. https://doi.org/10.1016/j.knee.2024.07.021
  6. Patricios, J. S., Schneider, K. J., Dvorak, J., et al. (2023). Consensus statement on concussion in sport: The 6th International Conference on Concussion in Sport—Amsterdam, October 2022. British Journal of Sports Medicine, 57(11), 695–711. https://doi.org/10.1136/bjsports-2023-106898

Tem dúvidas sobre a sua situação?

Uma avaliação individual permite compreender melhor o seu caso.