
O bruxismo é uma atividade dos músculos da mastigação que pode acontecer durante o sono ou enquanto estamos acordados. Pode envolver ranger ou apertar os dentes, mas também outras formas de atividade da mandíbula. Nem sempre a pessoa se apercebe de que o faz.
Em algumas pessoas, o bruxismo não provoca consequências relevantes. Noutras, pode estar associado a desgaste dentário, dor ou fadiga dos músculos da mastigação e sintomas na região da articulação temporomandibular (ATM).
Perceber o que é o bruxismo, quais os seus sinais e quando pode ser importante procurar avaliação ajuda a escolher a abordagem mais adequada.
Durante muito tempo, o bruxismo foi descrito simplesmente como “ranger os dentes”. Hoje sabe-se que esta definição é demasiado limitada.
O bruxismo é entendido como uma atividade dos músculos mastigatórios, que pode envolver:
- apertar os dentes;
- ranger os dentes;
- manter contacto entre os dentes;
- manter a mandíbula numa posição fixa ou projetá-la para a frente;
- outras atividades repetitivas ou sustentadas dos músculos da mastigação.
O consenso internacional atualizado em 2025 recomenda distinguir dois tipos: o bruxismo do sono e o bruxismo em vigília.
Segundo este consenso, o bruxismo não deve ser automaticamente interpretado como uma doença. Em pessoas saudáveis, pode não ter qualquer consequência; noutras, pode funcionar como fator de risco para determinados problemas; e, em algumas situações, pode até ter um papel protetor ou não ter relação com os sintomas.
Bruxismo do sono
Acontece durante o sono e pode envolver atividade rítmica ou não rítmica dos músculos da mastigação. Como ocorre a dormir, a pessoa muitas vezes não tem consciência do comportamento.
Pode haver sons de ranger dos dentes, muitas vezes notados por quem dorme ao lado — mas estes sons não são obrigatórios.
Bruxismo em vigília
Acontece enquanto a pessoa está acordada. Pode envolver:
- apertar os dentes;
- manter os dentes em contacto;
- tensionar a mandíbula;
- movimentos repetitivos ou sustentados da mandíbula.
Pode ocorrer de forma consciente ou inconsciente — por exemplo, durante períodos de concentração, ao computador ou a conduzir. O stress pode estar associado em algumas pessoas, mas não explica todos os casos.
Sim.
Bruxismo não significa necessariamente ranger os dentes. Algumas pessoas apresentam sobretudo apertamento dentário ou atividade sustentada da mandíbula, especialmente durante a vigília.
É uma das razões pelas quais alguém pode ter sintomas na mandíbula sem nunca ter ouvido dizer que range os dentes à noite. Ainda assim, apertar os dentes de vez em quando não significa automaticamente ter bruxismo.
Os sinais e sintomas que podem estar associados incluem:
- dor ou tensão na mandíbula;
- fadiga dos músculos da mastigação;
- dor nos músculos da face;
- sensibilidade na região da ATM;
- desconforto ao mastigar ou sensação de mandíbula cansada;
- dor na região temporal e algumas formas de dor de cabeça;
- tensão ou desconforto cervical em algumas pessoas;
- desgaste dentário e sensibilidade dentária;
- fraturas ou alterações de restaurações, em situações específicas;
- dificuldade ou desconforto ao abrir a boca;
- perceber que aperta os dentes durante o dia.
Nenhum destes sintomas é exclusivo do bruxismo. Todos podem ter outras causas, pelo que a sua presença não permite, por si só, confirmar o diagnóstico.
Mandíbula
Dor, tensão, fadiga ou desconforto ao mastigar.
Músculos da face
Sobretudo os músculos envolvidos na mastigação, como o masseter e o temporal.
Região da ATM
Dor junto à articulação, desconforto ao abrir ou fechar a boca ou durante a mastigação.
Cabeça
Algumas pessoas referem dor na região temporal ou outros tipos de dor de cabeça associados a sintomas orofaciais. O bruxismo não é, no entanto, a causa de todas as dores de cabeça.
Ouvido
Em algumas pessoas com sintomas temporomandibulares pode existir sensação de pressão ou desconforto junto ao ouvido. Dor de ouvido não significa bruxismo e deve ser avaliada quando persiste.
Pescoço
Algumas pessoas apresentam tensão ou desconforto cervical associado a alterações musculares e temporomandibulares. A presença de dor cervical, por si só, não permite diagnosticar bruxismo.
Bruxismo e disfunção temporomandibular (DTM) não são a mesma coisa.
- Bruxismo: atividade ou comportamento dos músculos da mastigação.
- DTM: grupo de problemas que pode envolver a articulação temporomandibular, os músculos mastigatórios e estruturas relacionadas.
Na prática:
- uma pessoa pode ter bruxismo sem qualquer dor;
- uma pessoa pode ter DTM sem que o bruxismo seja a principal causa;
- algumas pessoas apresentam ambos.
A relação entre os dois é complexa e multifatorial. O bruxismo pode estar associado a sintomas temporomandibulares em algumas pessoas, mas não é correto dizer que “causa a ATM”. Também fatores como a oclusão (a forma como os dentes encaixam) parecem ter uma relação limitada e pouco consistente com as DTM.
O bruxismo e as queixas temporomandibulares podem coexistir com determinadas dores de cabeça, sobretudo na região das têmporas. Ainda assim, uma dor de cabeça não deve ser automaticamente atribuída ao bruxismo.
Se a dor de cabeça for nova, intensa, recorrente ou acompanhada de outros sintomas, deve ser avaliada por um médico.
A mandíbula, a região craniofacial e a região cervical podem apresentar sintomas associados em algumas pessoas, mas não existe uma relação causal direta em todos os casos. Por isso, a avaliação deve considerar:
- a mandíbula e os músculos mastigatórios;
- a ATM;
- a região cervical;
- o comportamento dos sintomas;
- os movimentos e a função.
O bruxismo não tem uma causa única — é multifatorial. Dependendo da pessoa, podem estar associados:
- fatores relacionados com o sono e alterações do sono;
- fatores comportamentais;
- stress e outros fatores psicossociais;
- determinadas condições clínicas;
- alguns medicamentos;
- fatores genéticos;
- outros fatores individuais.
O stress e outros fatores psicossociais podem estar associados ao bruxismo em algumas pessoas, mas não explicam todos os casos. Na maioria dos estudos, estas relações são de associação — não de causa e efeito.
Não é possível confirmar bruxismo apenas porque existe dor na mandíbula. A avaliação pode considerar:
- o relato da própria pessoa;
- o relato de um parceiro/a ou familiar;
- sinais clínicos e desgaste dentário;
- sintomas musculares e comportamento da mandíbula;
- a avaliação da ATM;
- quando indicado, exames instrumentais.
O consenso internacional distingue diferentes níveis de avaliação — desde o autorrelato até à avaliação clínica e instrumental. Exames como a eletromiografia ou a polissonografia podem ter utilidade em contextos específicos, mas não são necessários para todas as pessoas.
Como é feita a avaliação?
Diferentes profissionais podem ter papéis diferentes.
Médico dentista
Avalia os dentes, o desgaste, as restaurações, a sensibilidade, a saúde oral e a eventual necessidade de um dispositivo intraoral.
Profissional com experiência em DTM/dor orofacial
Quando existem sintomas específicos da região temporomandibular e orofacial.
Osteopata ou fisioterapeuta
Quando existe uma componente musculoesquelética — dor, tensão muscular ou alterações funcionais — dentro da respetiva área profissional.
Médico
Quando existem outros sintomas, condições clínicas ou necessidade de investigação complementar.
Em muitos casos, a melhor resposta resulta de uma abordagem multidisciplinar, com cada profissional a contribuir dentro da sua área.
O objetivo não é necessariamente “eliminar todo o bruxismo”, mas reduzir as consequências relevantes e melhorar os sintomas e a função. Abordagens possíveis:
- acompanhamento regular da saúde oral;
- proteção da dentição, quando clinicamente indicada;
- identificar momentos de apertamento durante o dia;
- estratégias comportamentais;
- melhorar a qualidade do sono;
- reduzir fatores que aumentem a sobrecarga da mandíbula;
- acompanhar os sintomas da ATM;
- tratamento individualizado da dor, quando necessário.
Em algumas pessoas, o médico dentista pode recomendar uma goteira ou outro dispositivo intraoral, especialmente quando existe preocupação com o desgaste ou outras consequências sobre a dentição.
A goteira não cura o bruxismo nem o impede, e não está indicada para todas as pessoas. A sua função depende do tipo de dispositivo e da situação clínica.
No que diz respeito à dor e às DTM, a evidência é variável. Uma meta-análise de ensaios clínicos de 2025 não demonstrou superioridade das goteiras em relação a outras terapias conservadoras, e uma revisão sistemática de 2024 comparou-as com técnicas de terapia manual, sem que as goteiras se destacassem como solução universal.
Para a proteção dos dentes, a decisão deve ser tomada pelo médico dentista, de acordo com o risco e o estado da dentição.
Enquanto osteopata, o meu papel pode passar pela avaliação e abordagem dos componentes musculoesqueléticos associados aos sintomas. A avaliação pode considerar:
- os músculos da mastigação;
- a mandíbula e a ATM;
- a região cervical;
- a mobilidade e a tensão muscular;
- o comportamento dos sintomas e a relação entre movimento e dor.
O objetivo não é substituir o acompanhamento dentário ou médico, nem afirmar que a osteopatia elimina o bruxismo. Em determinadas pessoas, a abordagem osteopática pode contribuir para reduzir a dor, a tensão muscular e melhorar a função. A osteopatia não impede o ranger dos dentes, não substitui uma goteira, não trata o desgaste dentário nem corrige a oclusão.
Na minha prática clínica, já acompanhei pessoas com dor e tensão na região da articulação temporomandibular (ATM), nas quais a intervenção teve como objetivo reduzir os sintomas e melhorar a função. Em alguns destes casos, foram utilizadas técnicas de terapia manual e punção seca com agulhas de acupuntura, incluindo eletroestimulação, de acordo com a avaliação clínica e a tolerância de cada pessoa.
Os resultados podem variar de pessoa para pessoa e a escolha das técnicas depende sempre da avaliação individual. Reduzir sintomas não é o mesmo que tratar a causa do bruxismo.
A punção seca tem sido estudada em pessoas com disfunções temporomandibulares e dor orofacial. Algumas revisões sistemáticas recentes sugerem que pode contribuir para reduzir a dor e melhorar alguns parâmetros funcionais em determinados quadros de DTM. No entanto, os estudos diferem em técnicas, populações e duração do acompanhamento, pelo que os resultados devem ser interpretados com cautela.
Estes estudos dizem respeito aos sintomas de DTM — não demonstram que a punção seca trate o comportamento de bruxismo.
A eletroestimulação pode ser utilizada em determinados contextos clínicos, dependendo da técnica e do objetivo, mas não cura o bruxismo e a evidência específica deve ser interpretada com cautela.
Experiência clínica / caso clínico
Caso clínico: bruxismo crónico associado a sintomas da ATM
Na minha prática clínica, acompanhei uma pessoa com um quadro crónico de bruxismo associado a sintomas na região da articulação temporomandibular.
Ao longo do acompanhamento, após quatro sessões, foi observada uma redução marcada dos sintomas referidos pela pessoa.
A abordagem foi adaptada à avaliação realizada e incluiu técnicas manuais, punção seca e eletroestimulação, de acordo com a avaliação clínica e a tolerância da pessoa.
Este resultado representa a evolução de um caso individual e não permite prever o mesmo resultado ou número de sessões noutras pessoas.
O acompanhamento do bruxismo e das queixas temporomandibulares pode beneficiar da colaboração entre diferentes profissionais, dependendo das necessidades de cada pessoa:
- médico dentista — saúde oral, desgaste e proteção da dentição;
- profissional de DTM/dor orofacial — queixas específicas da ATM;
- osteopata/fisioterapeuta — componentes musculoesqueléticos, dor e função;
- médico — outras condições clínicas e sono;
- psicólogo ou outros profissionais — quando relevante.
O objetivo não é escolher entre profissionais, mas perceber qual o contributo de cada um para o caso.
Como osteopata, posso ajudar na avaliação e gestão dos componentes musculoesqueléticos associados à dor e tensão da mandíbula, mas o acompanhamento do bruxismo deve ser articulado com outros profissionais de saúde sempre que necessário.
- reparar se aperta os dentes durante o dia;
- evitar manter os dentes constantemente encostados quando não está a mastigar;
- fazer pausas durante períodos prolongados de concentração;
- evitar hábitos que aumentem a sobrecarga da mandíbula;
- manter uma rotina de sono adequada;
- procurar avaliação dentária quando existem sinais de desgaste;
- procurar avaliação quando existe dor persistente ou limitação da abertura da boca.
Estas medidas não são uma cura, mas podem ajudar a reduzir a sobrecarga. Manter-se ativo também faz parte da gestão da dor — saiba mais em Movimento como aliado da recuperação.
Quando procurar avaliação de um médico dentista ou outro profissional?
- desgaste ou fraturas dentárias;
- sensibilidade dentária persistente ou dor dentária importante;
- dor mandibular persistente;
- bloqueio da mandíbula ou dificuldade significativa em abrir ou fechar a boca;
- alteração súbita da mordida;
- inchaço ou trauma;
- sintomas que interferem com a alimentação ou o sono;
- sintomas neurológicos ou outros sinais que necessitem de avaliação médica.
Os problemas dentários devem ser sempre avaliados por um médico dentista.
O bruxismo não é simplesmente sinónimo de ranger os dentes durante a noite.
Pode ocorrer durante o sono ou em vigília e manifestar-se de diferentes formas. Em algumas pessoas não provoca consequências relevantes; noutras, pode estar associado a desgaste dentário, dor muscular ou sintomas temporomandibulares. Por isso, a abordagem não deve ser igual para todas as pessoas.
O mais importante é perceber quais as consequências que estão realmente presentes, avaliar os fatores que podem estar associados e escolher as intervenções adequadas para cada caso. Como acontece noutras queixas, a dor não é sinónimo de lesão e, quando se prolonga, pode mudar com o tempo — como explico em Dor persistente: o que muda ao longo do tempo.
Quando existem questões dentárias, o acompanhamento pelo médico dentista é fundamental. Quando existe uma componente musculoesquelética associada à dor ou tensão, a osteopatia pode integrar uma abordagem multidisciplinar.
É possível ter bruxismo sem ranger os dentes?
Sim. Pode manifestar-se sobretudo por apertamento ou tensão sustentada da mandíbula.
O bruxismo pode causar dor na mandíbula?
Pode estar associado a dor ou fadiga dos músculos da mastigação em algumas pessoas, mas a dor na mandíbula pode ter outras causas.
A goteira cura o bruxismo?
Não. Pode ser indicada pelo médico dentista para proteger os dentes, mas não elimina o bruxismo.
Quando devo procurar um médico dentista?
Quando existe desgaste, fraturas, sensibilidade persistente, alteração da mordida ou dor dentária.
Veja testemunhos reais
Conheça algumas experiências partilhadas por pessoas que procuraram acompanhamento e falaram sobre a sua experiência.
Tem dúvidas sobre a sua dor na ATM?
Se tem dor, tensão ou desconforto na região da mandíbula ou da ATM e não sabe qual poderá ser a abordagem mais adequada, entre em contacto comigo. Posso avaliar a sua situação e explicar se uma consulta de osteopatia pode ser adequada.
Quando necessário, a abordagem pode ser articulada com outros profissionais de saúde, nomeadamente médicos dentistas e outros profissionais envolvidos no acompanhamento da ATM e saúde oral.
Referências
- Verhoeff, M. C., Lobbezoo, F., Ahlberg, J., et al. (2025). Updating the bruxism definitions: report of an international consensus meeting. Journal of Oral Rehabilitation, 52(9), 1335–1342. https://doi.org/10.1111/joor.13985
- Lobbezoo, F., Ahlberg, J., Raphael, K. G., et al. (2018). International consensus on the assessment of bruxism: report of a work in progress. Journal of Oral Rehabilitation, 45(11), 837–844. https://doi.org/10.1111/joor.12663
- Bronkhorst, H., Kalaykova, S., Huysmans, M. C., Loomans, B., & Pereira-Cenci, T. (2024). Tooth wear and bruxism: a scoping review. Journal of Dentistry, 145, 104983. https://doi.org/10.1016/j.jdent.2024.104983
- Lekaviciute, R., & Kriauciunas, A. (2024). Relationship between occlusal factors and temporomandibular disorders: a systematic literature review. Cureus, 16(2), e54130. https://doi.org/10.7759/cureus.54130
- Zhang, Y., Zhang, H., Liu, R., et al. (2025). The efficacy of treatments for temporomandibular disorders with occlusal splints versus other conservative therapies: a meta-analysis of randomized controlled trials. Oral Surgery, Oral Medicine, Oral Pathology and Oral Radiology, 139(5), 509–520. https://doi.org/10.1016/j.oooo.2024.11.089
- Khayamzadeh, M., Razmara, F., Tavassoli, A., et al. (2025). Dry needling in treatment of temporomandibular joint disorders: a systematic review. Clinical and Experimental Dental Research, 11(5), e70214. https://doi.org/10.1002/cre2.70214
- Villar-Aragón-Berzosa, V., Obrero-Gaitán, E., Lérida-Ortega, M. Á., et al. (2024). Manual therapy techniques versus occlusal splint therapy for temporomandibular disorders: a systematic review with meta-analysis. Dentistry Journal, 12(11), 355. https://doi.org/10.3390/dj12110355



