
A dor nem sempre desaparece rapidamente. Quando persiste ou regressa durante mais de três meses, pode ser considerada dor crónica. Isto não significa necessariamente que exista uma lesão que continue a piorar ou que os tecidos estejam permanentemente danificados.
Ao longo do tempo, a forma como o sistema nervoso processa e regula os sinais relacionados com a dor pode mudar. Compreender estas alterações pode ajudar a perceber porque é que uma dor pode persistir mesmo depois de a situação inicial ter melhorado.
O que é a dor crónica?
A International Association for the Study of Pain considera dor crónica a dor que persiste ou recorre durante mais de três meses. “Crónica” descreve principalmente a duração da dor e não significa automaticamente doença grave, lesão permanente, dano contínuo dos tecidos ou ausência de possibilidade de melhoria.
Existem diferentes formas de dor crónica. A classificação internacional distingue, entre outras:
- dor crónica primária;
- dor crónica secundária;
- dor crónica neuropática;
- dor crónica relacionada com cancro;
- dor crónica pós-cirúrgica ou pós-traumática;
- outras formas específicas.
A dor pode mudar ao longo do tempo
A dor não é uma experiência estática. No início de uma lesão ou condição, os sinais provenientes dos tecidos podem ter um papel importante. Quando a dor persiste, podem ocorrer alterações na forma como o sistema nervoso:
- recebe informação;
- processa sinais;
- regula a intensidade da resposta;
- atribui importância a determinados estímulos;
- integra informação sensorial, emocional e contextual.
Estas alterações não significam que a pessoa esteja a imaginar a dor. A dor continua a ser uma experiência real.
O que é a neuroplasticidade?
O cérebro e o sistema nervoso conseguem adaptar-se.
Neuroplasticidade é a capacidade do sistema nervoso de modificar algumas das suas características e ligações em resposta à experiência, aprendizagem, contexto e estímulos repetidos. Quando aprendemos uma nova competência, o sistema nervoso adapta-se. Da mesma forma, experiências repetidas de dor podem estar associadas a alterações na forma como determinadas redes do sistema nervoso processam informação relacionada com a dor.
Não é correto dizer que “o cérebro fica danificado pela dor”, que “o cérebro cria a dor sozinho” ou que “a dor é apenas uma memória”. A explicação deve ser equilibrada.
O que a ciência tem observado no cérebro?
Estudos de neuroimagem em pessoas com dor crónica encontraram diferenças na atividade, conectividade e, em alguns estudos, características estruturais de determinadas regiões e redes cerebrais. Exemplos de áreas envolvidas no processamento da dor e da sua dimensão emocional e cognitiva incluem o córtex pré-frontal, a ínsula, o córtex cingulado anterior, áreas somatossensoriais e o tálamo.
Estudos recentes, incluindo uma meta-análise multimodal publicada em 2024, encontraram alterações funcionais e estruturais associadas à dor crónica. No entanto, estas alterações são observadas a nível populacional e não significam que uma determinada alteração numa imagem cerebral seja suficiente para diagnosticar a origem da dor de uma pessoa.
O sistema nervoso pode ficar mais sensível?
Em algumas situações de dor persistente, o sistema nervoso pode apresentar alterações na forma como responde a determinados estímulos. Isto pode contribuir para que estímulos que anteriormente eram pouco relevantes sejam sentidos como mais desconfortáveis ou dolorosos, como o toque, o movimento, a pressão ou a atividade física.
Não se afirma que qualquer pessoa com dor crónica tem sensibilização central, nem se apresenta “sensibilização central” como diagnóstico automático. O sistema nervoso não está “avariado”: trata-se de um mecanismo possível dentro da complexidade da dor persistente.
Dor não é sinónimo de dano contínuo
Como explorado no artigo “Dor não é sinónimo de lesão”, uma dor persistente não significa necessariamente que os tecidos estejam continuamente a sofrer danos. Pode existir uma situação inicial que desencadeou dor e, posteriormente, alterações na forma como o sistema nervoso processa essa experiência.
Uma pessoa pode ter tido uma lesão inicial que justificou dor. Depois de a lesão ter recuperado, a experiência dolorosa pode persistir por diferentes razões.
Não se afirma que isto acontece em todos os casos, nem que a lesão inicial deixou de ter qualquer importância.
Porque é que o contexto pode alterar a dor?
A experiência de dor pode ser influenciada por vários fatores: sono, stress, ansiedade, experiências anteriores, expectativas, medo do movimento, nível de atividade, contexto social, atenção dada aos sintomas e experiências anteriores de dor.
Isto não significa que “a dor seja psicológica”. Estes fatores podem influenciar a forma como o sistema nervoso interpreta e regula a experiência dolorosa.
O medo da dor pode influenciar o movimento?
Depois de uma experiência dolorosa, algumas pessoas podem começar a evitar determinados movimentos por receio de agravar a situação. Isto pode levar a menor atividade, perda de confiança no movimento, redução da capacidade física, maior atenção aos sintomas e dificuldade em retomar determinadas atividades.
Evitar movimentos pode ser adequado em determinadas fases ou situações, mas a evitação prolongada nem sempre é útil. Quando apropriado, a recuperação da confiança e da capacidade de movimento pode fazer parte de uma abordagem gradual e individualizada.
O que pode acontecer quando a pessoa volta a movimentar-se?
O sistema nervoso também tem capacidade de adaptação. A exposição progressiva a movimentos e atividades adequadas pode ajudar a recuperar capacidade e confiança. Este conceito pode ser descrito como adaptação progressiva.
Isto não significa obrigar uma pessoa a suportar dor intensa. A progressão deve considerar sintomas, capacidade funcional, nível de atividade, contexto individual e evolução ao longo do tempo. Não se prescrevem exercícios e não se promete que o movimento elimina a dor.
A dor crónica não é apenas um problema do cérebro
A dor crónica não deve ser reduzida à ideia de que existe um problema exclusivamente no cérebro. A dor pode envolver uma combinação de fatores relacionados com os tecidos, o sistema nervoso periférico, o sistema nervoso central, o sono, o estado emocional, o comportamento, o contexto social e as experiências anteriores.
A importância de cada fator varia de pessoa para pessoa e pode mudar ao longo do tempo.
A dor persistente pode melhorar?
Sim, a evolução da dor persistente pode mudar ao longo do tempo. Algumas pessoas apresentam melhoria significativa, enquanto outras podem ter períodos de maior e menor intensidade. Não se promete recuperação.
A abordagem adequada depende da natureza da dor, da sua duração, do impacto funcional e de outros fatores relevantes. A Organização Mundial da Saúde recomenda uma abordagem integrada e centrada na pessoa para a dor lombar crónica primária, considerando fatores físicos, psicológicos e sociais. Esta recomendação não se extrapola automaticamente para todos os tipos de dor crónica.
O que pode ajudar na gestão da dor persistente?
Dependendo da situação, podem fazer parte de uma abordagem:
- educação sobre a dor;
- atividade física adequada;
- exercício;
- recuperação do sono;
- estratégias psicológicas quando apropriado;
- gestão das atividades;
- acompanhamento clínico adequado;
- abordagens multidisciplinares quando necessário.
Não existe uma única intervenção que seja adequada para todas as pessoas. A evidência da Organização Mundial da Saúde para a abordagem da dor lombar crónica primária é um exemplo de abordagem integrada. Não se apresenta a osteopatia como tratamento universal da dor crónica.
Quando procurar avaliação?
Uma dor persistente merece avaliação quando:
- dura mais de três meses;
- interfere com o sono;
- limita atividades;
- afeta trabalho ou vida social;
- está progressivamente a piorar;
- apresenta sintomas novos;
- está associada a perda de força ou alterações neurológicas;
- surge após traumatismo significativo;
- ou existe preocupação sobre a causa.
Determinados sintomas podem justificar avaliação médica prioritária. Não se faz diagnóstico através do artigo.
Onde pode enquadrar-se uma avaliação de osteopatia?
Uma avaliação de osteopatia pode enquadrar-se na abordagem de algumas queixas musculoesqueléticas, considerando a mobilidade, a função e as características individuais da pessoa. A abordagem é definida após avaliação e deve ter em conta o contexto clínico de cada caso. Quando existem sinais que justificam avaliação médica ou outro acompanhamento especializado, este deve ser procurado.
Não se afirma que a osteopatia cura dor crónica, “reprograma o cérebro”, elimina sensibilização central, regenera tecidos, corrige alterações cerebrais, substitui acompanhamento médico, garante resultados ou funciona para todos os casos.
Conclusão
A dor persistente pode mudar ao longo do tempo. Quando a dor permanece durante meses, não é necessariamente porque uma lesão continua a provocar dano. A experiência dolorosa pode envolver alterações na forma como o sistema nervoso processa e regula a informação, juntamente com fatores relacionados com o corpo, o comportamento e o contexto.
A neuroplasticidade ajuda a compreender que o sistema nervoso não é estático: adapta-se às experiências. Essa adaptação pode contribuir para a persistência da dor, mas também significa que o sistema nervoso mantém capacidade de adaptação ao longo do tempo. Compreender estes mecanismos pode ser um passo importante para uma abordagem mais informada e individualizada da dor persistente.
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