
Durante muito tempo, a recuperação de uma dor ou lesão foi frequentemente associada à ideia de repousar até os sintomas desaparecerem. Hoje sabemos que, em muitas situações, o movimento e a atividade física podem desempenhar um papel importante na recuperação e na saúde em geral.
O exercício não deve ser visto apenas como uma ferramenta para atletas. Pode contribuir para a capacidade física, autonomia, saúde cardiovascular, força, mobilidade, bem-estar psicológico e qualidade de vida. Na presença de dor, a quantidade e o tipo de movimento podem precisar de ser adaptados. Mas, quando adequado, recuperar progressivamente a capacidade de movimento pode fazer parte de uma abordagem ativa à recuperação.
Porque é que o movimento é importante?
O corpo humano foi feito para se movimentar e a atividade física regular está associada a benefícios para diferentes sistemas do organismo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a atividade física regular pode:
- melhorar a saúde cardiovascular;
- ajudar na prevenção e gestão de várias doenças crónicas;
- melhorar a saúde mental;
- melhorar o bem-estar;
- contribuir para uma melhor qualidade de vida;
- ajudar a manter a capacidade funcional ao longo do envelhecimento.
Atividade física não significa obrigatoriamente praticar desporto. Pode incluir caminhar, andar de bicicleta, nadar, treinar força, praticar um desporto, realizar tarefas domésticas, deslocar-se a pé ou outras formas de movimento no dia a dia.
Movimento e dor: é preciso esperar que a dor desapareça?
Em muitas situações musculoesqueléticas, não é necessário esperar pela ausência completa de dor para começar ou retomar algum movimento. A recuperação deve considerar a intensidade dos sintomas, a capacidade funcional, a evolução ao longo do tempo, o tipo de atividade e o contexto individual.
Uma pequena alteração dos sintomas durante ou depois da atividade não significa automaticamente que exista uma nova lesão. Mas também não se recomenda “treinar através da dor” indiscriminadamente.
O objetivo não é ignorar a dor, mas aprender a gerir a atividade de acordo com a resposta do corpo.
O exercício pode ajudar na dor?
Existe evidência científica de que diferentes formas de exercício podem ajudar a reduzir a dor e melhorar a função em várias condições musculoesqueléticas, com particular destaque para a dor lombar. Uma umbrella review publicada em 2025 reuniu evidência de revisões sistemáticas sobre exercício terapêutico e atividade física na dor lombar.
Esta revisão encontrou evidência de certeza baixa a moderada de benefícios do exercício terapêutico e da atividade física no alívio da dor e na prevenção de recorrências da dor lombar. Não se afirma que o exercício “cura” a dor lombar ou que existe um exercício específico que funcione para todas as pessoas.
O exercício não serve apenas para diminuir a dor
O benefício do exercício não deve ser avaliado apenas pela intensidade da dor. O exercício pode contribuir para:
- melhorar força;
- melhorar resistência;
- melhorar capacidade funcional;
- aumentar tolerância à atividade;
- melhorar confiança no movimento;
- manter autonomia;
- melhorar qualidade de vida;
- apoiar a saúde cardiovascular e metabólica;
- melhorar bem-estar psicológico.
Em algumas situações, uma pessoa pode apresentar melhoria funcional antes de observar uma grande redução da dor. Isso pode ser uma evolução relevante.
Força, resistência e capacidade física
Diferentes tipos de exercício têm diferentes objetivos.
Exercício aeróbio
Exemplos incluem caminhada, corrida, bicicleta e natação. Pode contribuir para a capacidade cardiovascular e resistência.
Treino de força
Pode ajudar a desenvolver e manter força e capacidade muscular.
Mobilidade e controlo do movimento
Podem ser úteis para desenvolver capacidade de realizar determinados movimentos e atividades.
Exercício funcional
Pode aproximar o treino das exigências da vida diária, trabalho ou desporto. Não se afirma que uma modalidade é universalmente superior às restantes.
Existe um “melhor exercício”?
Não existe um único exercício que seja o melhor para todas as pessoas.
A escolha pode depender de:
- idade;
- condição física;
- objetivos;
- sintomas;
- experiência anterior;
- preferências;
- atividades profissionais;
- prática desportiva;
- capacidade atual.
A adesão e a capacidade de manter uma atividade ao longo do tempo também são importantes. Não se cria uma lista de exercícios específicos para uma condição clínica.
E se o movimento provocar algum desconforto?
Um pequeno aumento transitório dos sintomas durante ou depois de uma atividade não significa automaticamente que exista dano. No entanto, uma resposta muito intensa, persistente ou progressivamente agravada pode justificar redução da carga ou avaliação profissional.
A resposta à atividade deve ser observada ao longo do tempo. Não se estabelece uma regra rígida de “dor até X/10”, nem se recomenda que o leitor ignore dor intensa ou se incentive exercício perante sinais de alarme.
O movimento pode ajudar a recuperar confiança?
Como explorado no artigo “Dor persistente: o que muda ao longo do tempo”, uma experiência dolorosa pode levar algumas pessoas a evitar determinados movimentos. A redução prolongada da atividade pode contribuir para perda de capacidade física e confiança no movimento.
A exposição progressiva a atividades adequadas pode ajudar algumas pessoas a recuperar capacidade e confiança. Não se afirma que este mecanismo explica todas as situações de dor.
Movimento e dor crónica
O exercício pode fazer parte da abordagem de diferentes condições de dor persistente. A evidência não aponta para um único tipo de exercício como solução universal. A escolha deve ser adaptada à pessoa, aos objetivos e à capacidade atual.
O objetivo pode incluir:
- melhorar função;
- aumentar participação nas atividades;
- melhorar condição física;
- melhorar qualidade de vida;
- reduzir a limitação causada pela dor.
Não se promete eliminação da dor.
Movimento e qualidade de vida
A importância da atividade física vai muito além da dor. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a atividade física regular está associada a benefícios para a saúde física, saúde mental, bem-estar, qualidade de vida e envelhecimento saudável.
Qualquer quantidade de atividade física é melhor do que nenhuma. Para adultos, a OMS recomenda pelo menos 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbia de intensidade moderada, ou equivalente de atividade vigorosa, além de atividades de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias por semana.
Estes valores são recomendações gerais de saúde pública e não uma prescrição individual para uma pessoa com dor ou lesão. Pessoas com determinadas condições de saúde podem necessitar de adaptações.
E quando existe uma lesão?
Movimento não significa ignorar uma lesão. Depois de uma lesão, a atividade pode precisar de ser temporariamente modificada. A recuperação pode envolver uma progressão gradual de movimento, carga, força, resistência, tarefas específicas, atividade profissional e prática desportiva.
O ritmo dessa progressão depende da situação. Não se estabelecem tempos universais de recuperação.
Terapia manual e exercício podem complementar-se?
Exercício e terapia manual não precisam de ser apresentados como abordagens concorrentes. A evidência recente sugere que, em determinadas situações de dor lombar crónica, acrescentar terapia manual a um programa de exercício pode proporcionar benefícios adicionais, particularmente a curto prazo em alguns resultados de dor, função e incapacidade.
Uma revisão sistemática de 2025 de Narenthiran et al. encontrou resultados favoráveis em vários dos estudos incluídos. No entanto, outra meta-análise recente comparando exercício terapêutico e terapia manual encontrou apenas diferenças pequenas em alguns resultados e classificou a certeza global da evidência como muito baixa.
O exercício e a terapia manual podem desempenhar papéis diferentes e potencialmente complementares numa abordagem individualizada. O exercício permite desenvolver e recuperar capacidade ativa, enquanto a terapia manual pode ser utilizada como uma ferramenta complementar em determinadas situações.
Não se afirma que “exercício é melhor que terapia manual”, que “terapia manual é melhor que exercício” ou que “osteopatia + exercício é comprovadamente superior”.
Qual pode ser o papel da terapia manual?
A terapia manual pode incluir diferentes técnicas, como mobilização, manipulação e técnicas de tecidos moles, e pode ser utilizada como parte de uma abordagem multimodal. Uma das vantagens de uma abordagem complementar pode ser ajudar temporariamente na dor ou mobilidade, facilitando a participação da pessoa em atividades e exercício quando apropriado.
Não se afirma que a terapia manual “corrige a causa”, que manipulações “colocam vértebras no lugar” ou que existe superioridade da osteopatia.
O exercício como parte ativa da recuperação
O objetivo não é depender eternamente de uma intervenção passiva.
Quando apropriado, uma recuperação deve procurar aumentar progressivamente a capacidade da pessoa para realizar as atividades que são importantes para a sua vida. Isso pode significar caminhar mais, recuperar força, melhorar resistência, voltar ao trabalho, retomar atividades de lazer ou regressar ao desporto. Não se utilizam estes exemplos como prescrição.
Quando é importante procurar avaliação?
Antes de iniciar ou retomar exercício pode ser importante procurar avaliação quando existem:
- dor intensa ou progressiva;
- traumatismo significativo;
- perda importante de força;
- alterações neurológicas;
- sintomas sistémicos;
- limitações importantes;
- ou dúvidas sobre a segurança da atividade.
Em situações potencialmente graves ou urgentes, deve ser procurada avaliação médica adequada.
Onde pode enquadrar-se uma avaliação de osteopatia?
Uma avaliação de osteopatia pode enquadrar-se na abordagem de algumas queixas musculoesqueléticas, considerando a mobilidade, a função e as características individuais da pessoa. A abordagem é definida após avaliação e pode incluir técnicas manuais quando consideradas adequadas. Quando apropriado, a atividade física e o exercício podem complementar uma abordagem manual, de acordo com as necessidades e capacidade da pessoa.
Não se afirma que a osteopatia cura a dor, elimina lesões, substitui exercício, substitui medicina ou fisioterapia, garante resultados ou funciona para todas as pessoas.
Conclusão
O movimento não é apenas uma ferramenta para recuperar de uma dor ou lesão. É também uma parte importante da saúde ao longo da vida.
A evidência atual apoia a utilização do exercício e da atividade física em várias situações de dor musculoesquelética, particularmente na dor lombar, e mostra benefícios que vão além da intensidade da dor, incluindo função e qualidade de vida.
A recuperação pode beneficiar de uma abordagem ativa e individualizada. Em determinadas situações, técnicas manuais podem complementar o exercício, mas o objetivo deve ser ajudar a pessoa a recuperar capacidade e participação nas atividades que são importantes para a sua vida. Movimento, educação e acompanhamento adequado podem trabalhar em conjunto, em vez de serem vistos como alternativas isoladas.
Quer esclarecer uma situação?
Se pretende esclarecer uma queixa musculoesquelética ou perceber quais poderão ser os próximos passos, pode enviar um pedido de contacto.
Fontes científicas
- Comachio, J., Beckenkamp, P. R., Ho, E. K.-Y., Abdel Shaheed, C., Stamatakis, E., Ferreira, M. L., Lan, Q., Mork, P. J., Holtermann, A., Wang, D. X. M., & Ferreira, P. H. (2025). Benefits and harms of exercise therapy and physical activity for low back pain: An umbrella review. Journal of Sport and Health Science, 14, 101038. https://doi.org/10.1016/j.jshs.2025.101038
- Narenthiran, P., Granville Smith, I., & Williams, F. M. K. (2025). Does the addition of manual therapy to exercise therapy improve pain and disability outcomes in chronic low back pain: A systematic review. Journal of Bodywork & Movement Therapies, 42, 146–152. https://doi.org/10.1016/j.jbmt.2024.12.004
- Zhao, K., Zhang, P., Li, H., & Li, L. (2025). Exercise prescription for improving chronic low back pain in adults: A network meta-analysis. Frontiers in Public Health, 13, 1512450. https://doi.org/10.3389/fpubh.2025.1512450
- World Health Organization. (2020). WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. World Health Organization. https://doi.org/10.1136/bjsports-2020-102955
- World Health Organization. (2023). WHO guideline for non-surgical management of chronic primary low back pain in adults in primary and community care settings. World Health Organization.



