
“Tenho a coluna torta.” “Tenho má postura.” “Tenho escoliose, por isso é normal ter dores.” “Preciso de endireitar a coluna.” “Estou sentido de forma errada e estraguei as costas.”
Estas são algumas das ideias mais comuns quando falamos de coluna e dor. O problema é que muitas destas explicações são demasiado simples para uma realidade muito mais complexa.
A coluna vertebral é uma estrutura forte, móvel e capaz de se adaptar a diferentes posições e cargas. A postura pode variar entre pessoas e ao longo do dia. Uma determinada posição não é, por si só, uma explicação suficiente para a existência de dor. A dor lombar resulta frequentemente da interação de vários fatores e, na maioria dos casos, não é possível identificar uma única estrutura responsável pelos sintomas.
O objetivo deste artigo é separar alguns dos mitos mais comuns daquilo que a evidência científica atualmente nos permite afirmar.
A coluna é realmente “frágil”?
A coluna é uma estrutura robusta e adaptável. É constituída por vértebras, discos intervertebrais, articulações, ligamentos, músculos, tecido nervoso e outros tecidos que trabalham em conjunto. Está preparada para suportar movimento e carga.
Atividades como levantar pesos, baixar-se, rodar o tronco, correr, saltar ou treinar força não significam automaticamente que a coluna está a ser danificada. O corpo adapta-se às cargas a que é exposto.
Não se afirma que qualquer carga é sempre segura. Lesões podem acontecer e a quantidade de carga, a capacidade atual da pessoa, a exposição, a recuperação e o contexto são relevantes.
A coluna não precisa de estar permanentemente protegida de todos os movimentos.
Mito: “Tenho dor porque tenho má postura”
Esta é uma das ideias mais comuns, mas a evidência não sustenta a existência de uma única “postura correta” capaz de prevenir ou eliminar a dor lombar. Uma revisão de 2024 sobre mitos relacionados com dor lombar destaca precisamente que existe pouca evidência sólida para a ideia de que sentar, estar de pé ou dobrar-se numa determinada posição seja, por si só, a causa da dor.
Também uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 encontrou algumas diferenças posturais entre pessoas com e sem dor lombar, mas não permitiu estabelecer conclusões firmes devido à grande heterogeneidade dos estudos.
Não se afirma que a postura não tem qualquer relação com sintomas. A formulação correta é: a postura pode influenciar a forma como uma pessoa se sente e pode ser relevante em determinados contextos, mas não é possível afirmar que existe uma única postura correta cuja ausência explique a dor.
Mito: “Tenho de endireitar a minha coluna”
A expressão “endireitar a coluna” pode ser enganadora. A coluna humana não é perfeitamente reta vista de todos os ângulos. Existem curvas fisiológicas — lordose cervical, cifose torácica e lordose lombar — e existe variação natural entre pessoas. Não existe uma coluna visualmente idêntica para todos.
Procurar constantemente uma posição “perfeita” pode levar a excesso de rigidez, preocupação com movimentos normais, medo de determinadas posições e atenção excessiva à postura.
Mais importante do que encontrar uma posição perfeita é ter capacidade para variar posições e movimentar-se.
Mito: “Tenho a coluna torta, por isso tenho dor”
Uma assimetria corporal ou uma alteração da postura não permite, por si só, concluir que seja a causa da dor. O corpo humano apresenta assimetrias naturais. Uma pessoa pode ter um ombro ligeiramente mais alto, uma bacia aparentemente assimétrica, uma curva da coluna, diferenças na posição dos pés ou pequenas diferenças entre os lados. Estas características não significam automaticamente doença nem explicam necessariamente uma dor.
A avaliação deve considerar a pessoa como um todo.
“Tenho escoliose. É por isso que tenho dores?”
A escoliose é uma alteração tridimensional da coluna que pode ser diagnosticada e caracterizada clinicamente e, quando necessário, através de exames de imagem. Não se diagnostica escoliose apenas através de uma fotografia ou observação visual. O grau da curva é habitualmente quantificado através do ângulo de Cobb em radiografia, quando existe indicação para avaliação radiográfica.
Uma pessoa dizer “tenho a coluna torta” não permite saber se existe realmente escoliose, qual é o tipo de curva, qual é o ângulo de Cobb, se existe progressão, se a curva tem relevância clínica ou se explica os sintomas apresentados.
A relação entre escoliose e dor é complexa. Uma revisão sistemática de 2023 sobre dor em adultos com escoliose encontrou uma prevalência elevada de dor nestas populações, mas também mostrou que as características da dor variam de acordo com o tipo e localização da curva e outros fatores.
Ter escoliose não significa que toda a dor venha da escoliose. Mas também não significa que a escoliose nunca possa estar relacionada com sintomas. A interpretação deve ser individual.
Mito: “Quantos mais graus de escoliose, mais dor vou ter”
A relação não é tão simples. O ângulo de Cobb é importante para caracterizar a magnitude de uma curva escoliótica, mas não deve ser utilizado isoladamente para explicar a experiência de dor de uma pessoa. Não se cria uma regra do tipo “X graus = X quantidade de dor.”
A dor depende de vários fatores e pessoas com curvas semelhantes podem apresentar experiências diferentes. Da mesma forma, uma pessoa pode ter uma alteração estrutural sem apresentar dor significativa.
Mito: “A minha ressonância mostra um problema, por isso é a causa da dor”
Exames de imagem são importantes em situações específicas, mas não devem ser interpretados isoladamente. A revisão sistemática de Brinjikji et al. avaliou 33 estudos e 3.110 pessoas sem sintomas e encontrou alterações degenerativas frequentes mesmo em pessoas sem dor, como degeneração discal, abaulamento discal, protrusão discal e alterações degenerativas relacionadas com a idade.
Exemplos dos dados encontrados:
- A degeneração discal estava presente em aproximadamente 37% das pessoas aos 20 anos e 96% aos 80 anos.
- O abaulamento discal estava presente em aproximadamente 30% aos 20 anos e 84% aos 80 anos.
Estes números não significam que essas alterações sejam sempre irrelevantes. Significam que encontrar uma alteração numa imagem não permite concluir automaticamente “é isto que está a causar a minha dor.” A imagem deve ser interpretada juntamente com os sintomas, a história clínica, o exame, a função e o contexto individual.
Mito: “Tenho uma hérnia / disco deslocado”
A expressão “disco deslocado” ou “disco saído do lugar” é frequentemente utilizada no discurso quotidiano, mas é uma simplificação. Os discos podem apresentar abaulamento, protrusão, extrusão ou outras alterações estruturais. Não se utiliza a expressão “o disco saiu do lugar” como explicação anatómica, nem se afirma que uma manipulação “coloca o disco no lugar”.
A existência de uma alteração discal numa imagem também não determina automaticamente a intensidade dos sintomas.
Mito: “Estar sentado direito protege a minha coluna”
Não existe uma posição sentada universalmente correta que tenha de ser mantida durante todo o dia. Sentar durante longos períodos pode estar associado a desconforto em algumas pessoas, mas isso não significa que exista uma posição única que impeça a dor.
Uma estratégia mais útil pode ser:
- variar posições;
- levantar-se regularmente;
- caminhar;
- alternar tarefas;
- ajustar o posto de trabalho;
- manter atividade física.
Não se afirma que sentar é “mau para a coluna”.
Mito: “Dobrar a coluna faz mal”
A flexão da coluna é um movimento normal. A coluna foi feita para se mover. Dobrar-se para apanhar um objeto, calçar sapatos, levantar uma criança, trabalhar ou praticar exercício não significa automaticamente que a coluna esteja a ser lesionada.
Em determinadas situações, uma pessoa pode precisar de adaptar temporariamente determinados movimentos, especialmente durante uma fase aguda de dor ou após uma lesão. Mas evita-se a ideia de que a flexão deve ser permanentemente evitada.
Mito: “Levantar pesos estraga a coluna”
Levantar pesos pode aumentar a carga sobre a coluna, mas isso não significa que seja prejudicial por definição. O treino de força pode fazer parte de uma vida saudável e da recuperação de várias condições musculoesqueléticas.
O risco de lesão depende de vários fatores:
- carga;
- volume;
- técnica;
- experiência;
- capacidade atual;
- progressão;
- recuperação;
- contexto.
A ideia não deve ser “evite pesos para proteger a coluna”, mas sim “a capacidade para lidar com cargas pode ser desenvolvida progressivamente”.
Mito: “Tenho de ter um core muito forte para não ter dor”
Fortalecer o tronco pode ser útil, mas não existe evidência para afirmar que a falta de força abdominal seja a causa principal da maioria das dores lombares. Uma revisão sobre mitos da dor lombar destaca que exercícios de estabilização podem ajudar, mas não demonstram uma superioridade consistente sobre outras formas de exercício ativo a longo prazo.
Um tronco forte pode ser uma parte da capacidade física, mas não é uma explicação única para a dor lombar.
Então, de onde vem a dor?
Em grande parte dos casos de dor lombar, não é possível identificar uma única estrutura responsável. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 90% dos casos de dor lombar são classificados como não específicos.
Isto não significa que a dor seja imaginária, que não exista nenhuma causa ou que a pessoa não tenha nada. Significa que não é possível atribuir a dor de forma confiável a uma doença ou lesão estrutural específica.
Podem contribuir vários fatores:
- características dos tecidos;
- capacidade física;
- atividade e carga;
- sono;
- stress;
- experiências anteriores;
- fatores psicológicos;
- contexto social;
- trabalho;
- hábitos de vida;
- expectativas.
Não se afirma que todos estes fatores estão presentes em todas as pessoas.
A coluna pode ser forte e a pessoa ter dor?
Sim.
Dor não é uma medida direta da resistência estrutural da coluna. Uma pessoa pode ter uma coluna estruturalmente saudável e sentir dor, alterações visíveis na coluna e não sentir dor, dor intensa sem uma lesão estrutural grave identificável, ou alterações estruturais relevantes que necessitem de acompanhamento clínico.
Isto reforça a importância de não reduzir a pessoa à imagem da sua coluna. Não se trata uma radiografia — avalia-se uma pessoa.
O que é mais útil do que procurar a postura perfeita?
Em vez de procurar uma posição perfeita, pode ser mais útil desenvolver capacidade para variar posições, movimentar-se, desenvolver força, melhorar capacidade física, tolerar diferentes cargas, manter atividades relevantes, adaptar temporariamente determinadas tarefas quando necessário e recuperar progressivamente após episódios de dor.
Como explorado no artigo “Movimento como aliado da recuperação”, o movimento pode desempenhar um papel importante na recuperação e na saúde em geral.
Quando é importante procurar avaliação?
A maioria das dores lombares não corresponde a uma situação grave, mas alguns sinais justificam avaliação adequada:
- traumatismo significativo;
- suspeita de fratura;
- febre;
- perda de peso inexplicada;
- historial de doença grave relevante;
- dor progressiva e inexplicada;
- perda importante ou progressiva de força;
- alterações neurológicas significativas;
- perda de sensibilidade na região genital/perineal;
- alterações novas no controlo da bexiga ou intestino.
Estes sinais não significam automaticamente uma doença grave, mas justificam avaliação médica adequada.
Onde pode enquadrar-se uma avaliação de osteopatia?
Uma avaliação de osteopatia pode enquadrar-se na abordagem de algumas queixas musculoesqueléticas, considerando a mobilidade, a função e as características individuais da pessoa. A abordagem é definida após avaliação e deve ter em conta o contexto clínico de cada caso. Quando existem sinais que justificam avaliação médica ou outro acompanhamento especializado, este deve ser procurado.
Não se afirma que a osteopatia endireita a coluna, corrige definitivamente escoliose, coloca vértebras no lugar, coloca discos no lugar, elimina hérnias, corrige a postura de forma permanente, cura a dor, substitui avaliação médica ou garante resultados.
Conclusão
A coluna não precisa de ser perfeita para funcionar bem. Uma postura diferente, uma assimetria ou uma alteração encontrada numa imagem não explicam automaticamente a existência de dor.
A coluna é uma estrutura forte e adaptável, e a dor lombar resulta frequentemente da interação de vários fatores. Mais importante do que procurar uma postura perfeita ou tentar “endireitar” constantemente a coluna é compreender a situação individual, manter capacidade de movimento e interpretar os sinais do corpo dentro do seu contexto.
Quando existe dor persistente, limitação importante ou sinais de alarme, uma avaliação adequada pode ajudar a perceber quais são os próximos passos.
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Fontes científicas
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