Quiropraxia e osteopatia: diferenças, técnicas HVLA e o que diz a evidência
Marco Dinis ·

Procura quiropraxia porque tem dor nas costas ou no pescoço, ou porque viu uma técnica de manipulação? A dúvida é compreensível: a quiropraxia e a osteopatia podem utilizar algumas técnicas semelhantes, mas não são a mesma prática. E um estalido não é, por si só, sinal de um tratamento bem-sucedido.
Sou Marco Dinis, osteopata. Neste artigo explico as diferenças entre estas abordagens, o que são as técnicas HVLA e o que a investigação permite — e não permite — afirmar. A escolha de uma técnica deve partir da avaliação da pessoa, e não da procura de um estalido ou da promessa de um resultado.
A quiropraxia é uma prática de saúde frequentemente centrada na avaliação e no acompanhamento de problemas musculoesqueléticos, em particular da coluna. Pode incluir manipulação articular, outras técnicas manuais, exercício e aconselhamento. A abordagem concreta varia entre profissionais.
Quiropraxia não é sinónimo de manipulação: uma é uma prática profissional; a outra é uma técnica também utilizada por profissionais de outras áreas, com formação adequada. Explicações de que uma vértebra está ‘fora do lugar’ e precisa de ser recolocada não descrevem de forma rigorosa a maioria das situações comuns de dor nas costas. [1]
A osteopatia e a quiropraxia têm percursos de formação e enquadramentos profissionais distintos. Ambas podem recorrer a técnicas manuais e considerar o movimento e a função; as técnicas e a forma de avaliar não são idênticas em todos os profissionais.
Mais útil do que perguntar qual é ‘melhor’ é perceber quem o vai avaliar, quais as suas qualificações, que intervenção propõe e porquê. Resultados de estudos sobre manipulação vertebral não demonstram que uma profissão inteira seja superior a outra. Também não justificam atribuir todos os sintomas à coluna.
HVLA significa high velocity, low amplitude: alta velocidade e baixa amplitude. É um impulso manual rápido, de pequena amplitude e controlado, aplicado a uma articulação após preparação e avaliação. Uma mobilização, por comparação, utiliza movimentos sem esse impulso rápido. [1]
Pode ouvir-se um estalido associado a alterações de pressão e à formação de uma cavidade gasosa no líquido articular. O som não prova que um osso mudou para a posição correta, nem que a técnica foi eficaz. Pode haver resposta clínica sem estalido e estalido sem melhoria.
A intenção pode ser influenciar temporariamente a dor ou o movimento. Isso não significa corrigir de forma permanente uma estrutura, eliminar a causa de todos os sintomas ou garantir alívio. Não é necessário manipular todas as pessoas nem todas as articulações.

Sim. Um osteopata com formação adequada pode utilizar manipulações HVLA, quando a avaliação, a segurança e as preferências da pessoa o permitem. A utilização de uma técnica partilhada não transforma uma consulta de osteopatia numa consulta de quiropraxia.
Há alternativas, incluindo mobilizações sem impulso, técnicas de tecidos moles, exercício e orientação. A manipulação pode ser uma opção, não uma obrigação. Se não se sentir confortável com uma técnica, pode recusá-la e discutir outras possibilidades.
Para dor lombar crónica, uma revisão de 47 ensaios encontrou, em geral, efeitos da manipulação vertebral semelhantes aos de outros tratamentos recomendados. Isso não demonstra superioridade sobre exercício ou outros cuidados apropriados, nem prevê o resultado de uma pessoa específica. [2]
A orientação da OMS de 2023 admite a manipulação como parte dos cuidados de adultos com dor lombar primária crónica, numa recomendação condicional apoiada em evidência de muito baixa certeza. A NICE recomenda considerar terapia manual para lombalgia com ou sem ciática apenas num plano que inclua exercício, com ou sem uma abordagem psicológica. [3,4]
Estas conclusões têm limites: dizem respeito a condições e grupos estudados, com diferenças entre intervenções e resultados. Não devem ser extrapoladas automaticamente para todas as dores, para crianças ou para doenças não musculoesqueléticas. Não há base para prometer cura, alívio garantido ou resultados duradouros.
Pode existir dor ou rigidez transitória após uma manipulação. Eventos graves são considerados raros, mas a frequência exata é difícil de estimar e a ausência desses eventos em pequenos estudos não prova ausência de risco. [1,2]
Na região cervical, existe uma associação estatística descrita entre manipulação e dissecção arterial, uma lesão de uma artéria que pode causar AVC. A causalidade não está estabelecida: uma dissecção já em evolução pode começar por dor no pescoço ou dor de cabeça. A declaração AHA/ASA recomenda informar a pessoa desta possível associação antes de manipulação cervical. [5]
Suspeita de fratura, infeção, instabilidade, fragilidade óssea importante ou alterações neurológicas pode tornar uma técnica inadequada e exigir avaliação médica. Dor súbita e invulgar na cabeça ou pescoço, sobretudo com alterações da fala ou visão, fraqueza ou desequilíbrio, exige avaliação urgente. Perda recente do controlo da bexiga ou intestino, dormência na zona genital ou fraqueza progressiva também não deve aguardar um pedido de contacto: procure assistência urgente; numa emergência, ligue 112.

Começo por compreender os sintomas, a sua evolução, os antecedentes de saúde, as atividades afetadas e os objetivos de cada pessoa. A avaliação do movimento e os testes considerados relevantes permitem definir uma abordagem adequada a cada situação e perceber se é necessário algum encaminhamento.
Consoante as necessidades identificadas, posso recorrer a mobilizações articulares, técnicas de tecidos moles ou manipulações HVLA, sempre que sejam consideradas adequadas e mediante consentimento informado. O acompanhamento pode também incluir exercícios e orientações para facilitar o regresso às atividades do dia a dia.
Punção seca e eletroestimulação
A punção seca, realizada com agulhas finas semelhantes às utilizadas em acupuntura, é uma das técnicas que integro na minha prática clínica. A sua utilização pode ser complementada com eletroestimulação, de acordo com a avaliação e as necessidades de cada pessoa.
Ao longo da minha experiência clínica, tenho recorrido a estas técnicas em diferentes situações de dor muscular e dor crónica, tendo acompanhado pessoas que conseguiram um alívio significativo dos sintomas e uma melhoria do seu conforto e funcionalidade.
A escolha desta abordagem depende sempre de cada caso, da avaliação individual e da resposta ao tratamento. Não é uma técnica necessária para todas as pessoas, mas pode constituir uma ferramenta complementar importante quando existe indicação para a sua utilização. [6]
A consulta começa por uma conversa e uma avaliação. Explico o que foi observado, as opções disponíveis, os benefícios esperados, as incertezas e os riscos relevantes. Quando é indicada uma intervenção, a decisão é partilhada: pode colocar perguntas, recusar ou interromper uma técnica.
O consentimento não é apenas uma assinatura. Inclui compreender alternativas — também a opção de não realizar manipulação — e decidir sem pressão. Reavalio a resposta ao acompanhamento e ajusto o plano quando necessário; não existe um número de sessões ou um prazo de recuperação garantido para todas as pessoas.
Perguntas frequentes sobre quiropraxia e osteopatia
- 1. NCCIH. Spinal Manipulation: What You Need To Know.
- 2. Rubinstein SM et al. Benefits and harms of spinal manipulative therapy for the treatment of chronic low back pain. BMJ. 2019;364:l689. DOI: 10.1136/bmj.l689.
- 3. WHO. WHO guideline for non-surgical management of chronic primary low back pain in adults in primary and community care settings. 2023.
- 4. NICE. Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management. NG59, recommendation 1.2.7.
- 5. Biller J et al. Cervical arterial dissections and association with cervical manipulative therapy. Stroke. 2014;45:3155–3174. DOI: 10.1161/STR.0000000000000016.
- 6. Hu HT et al. Is dry needling effective for low back pain? A systematic review and PRISMA-compliant meta-analysis. Medicine. 2018;97:e11225. DOI: 10.1097/MD.0000000000011225.



